O ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), defendeu a continuidade das investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e afirmou que o senador Flávio Bolsonaro (PL) representa um “grave risco institucional” para o país.
As declarações foram feitas nesta quarta-feira (19), durante a primeira sabatina promovida pelos jornais O Globo e Valor Econômico e pela rádio CBN com candidatos ao governo paulista.
Ao comentar a disputa presidencial, Haddad afirmou que participa de um projeto político nacional e estadual e disse não considerar a possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula.
“O Brasil corre um grave risco institucional”, declarou Haddad ao falar sobre o senador.
No cenário paulista, o petista comparou sua disputa contra o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) a uma “luta de Davi contra Golias”. Tarcísio conta com uma ampla aliança partidária, enquanto Haddad disputa novamente o comando do maior colégio eleitoral do país.
Haddad defende investigação sobre Lulinha
Questionado sobre as investigações envolvendo Lulinha, Haddad afirmou que as apurações devem continuar sem interferências políticas e que eventuais responsabilidades precisam ser determinadas pelas autoridades.
As suspeitas citadas durante a entrevista envolvem a proximidade de Lulinha com uma lobista investigada no caso de fraudes relacionadas a aposentadorias do INSS, além de apurações sobre possível participação oculta em uma empresa ligada à cannabis medicinal e alegações de tráfico de influência no Ministério da Saúde.
Haddad ressaltou, entretanto, que as investigações ainda precisam determinar se houve efetivamente alguma irregularidade praticada pelo filho do presidente.
“A pessoa errou? Não quero saber o partido, a religião, ela paga”, afirmou.
Segundo Haddad, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal tiveram liberdade para atuar durante o governo Lula, inclusive em investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente.
Economia e passagem pelo Ministério da Fazenda
Durante a sabatina, Haddad também defendeu sua atuação à frente do Ministério da Fazenda e contestou críticas de que sua gestão não teria promovido contenção de gastos públicos.
A oposição tem utilizado como argumento o crescimento da relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB). Segundo os dados citados durante a entrevista, o indicador passou de 73,5% para 81,9%.
Haddad argumentou que o início do governo Lula precisou lidar com despesas acumuladas anteriormente e citou medidas adotadas para reorganizar as contas públicas.
O candidato também afirmou que sua gestão trabalhou na revisão de benefícios fiscais e destacou a renegociação das dívidas dos estados como uma das medidas que contribuíram para ampliar a capacidade de investimentos.
Cracolândia e programa De Braços Abertos
Outro tema abordado foi a Cracolândia, na região central da capital paulista.
Haddad defendeu os resultados do programa De Braços Abertos, implantado durante sua gestão como prefeito de São Paulo, entre 2013 e 2016. A iniciativa oferecia acomodação, alimentação e oportunidades de trabalho a dependentes químicos dentro de uma estratégia de redução de danos.
Segundo o candidato, o papel da Prefeitura é oferecer tratamento e assistência social, enquanto o enfrentamento ao tráfico de drogas é atribuição das forças de segurança estaduais.
Haddad afirmou que dois terços dos beneficiários do programa reduziram o consumo de crack.
Segurança pública
Haddad também criticou a política de segurança pública da atual gestão paulista e voltou a defender o uso de câmeras corporais por policiais. Segundo ele, o custo dos equipamentos é pequeno diante dos possíveis benefícios para a proteção da população e dos próprios agentes.
Entre suas propostas está a criação de uma “agência antifacção”, que reuniria forças policiais, órgãos federais e o Ministério Público. O candidato também propõe permitir o registro de boletins de ocorrência pelo WhatsApp, utilizando inteligência artificial para auxiliar na coleta das informações fornecidas pelas vítimas.
Enel, Sabesp e privatizações
Na área de infraestrutura e serviços públicos, Haddad afirmou que pretende realizar uma análise detalhada de contratos relacionados à Sabesp e às concessões das linhas de trens da CPTM.
Apesar das críticas à privatização da Sabesp, o candidato não assumiu compromisso de reestatizar a companhia e reconheceu que uma eventual reversão envolveria dificuldades jurídicas.
Haddad também afirmou ser favorável a parcerias público-privadas e concessões em determinados setores, mas disse ser contrário à venda de patrimônio considerado estratégico.
Educação e escolas cívico-militares
Na educação, o candidato defendeu a substituição gradual de contratos temporários de professores por profissionais contratados por concurso público.
Haddad também se posicionou contra a expansão do modelo de escolas cívico-militares. Segundo ele, entretanto, unidades que já adotaram o sistema não teriam necessariamente o modelo revertido sem uma consulta às respectivas comunidades escolares.
A sabatina marcou o início da série de entrevistas com candidatos ao governo paulista. Tarcísio de Freitas participa da próxima rodada nesta quinta-feira (20).