23 – setembro – 2026
23 setembro, 2026

Plano da Meta para substituir parte do trabalho humano por IA sofre recuo após resistência interna

Meta estudou reduzir em até 60% algumas equipes em um plano para transformar a empresa em uma organização “AI native”. Após demissões, revolta interna e resultados abaixo do esperado com agentes de IA, Zuckerberg cancelou uma segunda grande onda de reestruturação.

Um ambicioso projeto interno da Meta para tornar a empresa mais dependente de inteligência artificial chegou a considerar reduções de até 60% no tamanho de algumas equipes, mas encontrou resistência entre funcionários e dificuldades técnicas que levaram Mark Zuckerberg a recuar de parte da reestruturação.

Segundo documentos internos e fontes ouvidas pela Reuters, o plano recebeu o codinome Project OT, abreviação de Organization Transformation. A proposta começou a ganhar forma no início de 2026 e previa uma Meta mais “AI native”, expressão utilizada internamente para descrever uma companhia em que agentes de inteligência artificial assumiriam uma parcela crescente das tarefas hoje realizadas por funcionários.

A ideia era manter equipes humanas menores e mais concentradas em profissionais considerados de alto desempenho, enquanto sistemas automatizados assumiriam partes do desenvolvimento, análise e execução das atividades cotidianas.

A Meta confirmou à Reuters a existência do projeto, mas ressaltou que os cenários mais extremos nunca significaram a demissão de 60% de toda a força de trabalho. Segundo a empresa, esse percentual dizia respeito apenas a determinados grupos analisados durante exercícios internos de planejamento.

Reestruturação teria duas etapas

Os documentos apontam que a reorganização foi planejada originalmente em duas grandes ondas.

A primeira estava prevista para maio e a segunda para novembro. Além de demissões, a estratégia considerava transferência de funcionários para novas áreas, fechamento de vagas ainda não preenchidas e desligamento de profissionais classificados pela companhia como de baixo desempenho.

Em 20 de maio, a Meta efetivamente reduziu aproximadamente 10% de sua força de trabalho.

Horas antes dessa etapa, porém, Zuckerberg e outros executivos decidiram interromper o planejamento da segunda onda prevista para novembro, segundo documentação interna analisada pela Reuters.

Depois dos desligamentos, Zuckerberg informou aos funcionários que não esperava realizar novas demissões em massa em toda a companhia naquele ano.

Funcionários temiam estar treinando seus próprios substitutos

A resistência dentro da Meta aumentou à medida que funcionários passaram a associar os projetos de inteligência artificial à possibilidade de substituição de postos de trabalho.

Uma das iniciativas que provocou maior reação previa a instalação de software em computadores de funcionários nos Estados Unidos para registrar movimentos do mouse e digitação.

O objetivo era utilizar essas informações como dados de treinamento para agentes de IA capazes de reproduzir tarefas executadas por seres humanos em computadores.

A iniciativa alimentou a percepção, entre parte dos trabalhadores, de que eles poderiam estar ajudando a desenvolver sistemas destinados a substituí-los.

Funcionários passaram a manifestar insatisfação na rede interna Workplace, incluindo críticas diretas aos executivos e publicações irônicas sobre os planos de redução de pessoal.

Movimentos de organização dos trabalhadores também ganharam força.

Moral interna despencou

Dados internos citados pela Reuters mostram que a avaliação positiva dos funcionários sobre a empresa caiu de 74% para 55% na pesquisa semestral de clima organizacional da Meta.

A tensão aumentou depois que, em março, surgiram informações de que a companhia estudava cortes que poderiam alcançar 20% ou mais de sua força de trabalho.

Em abril, novas informações apontaram para uma primeira onda de aproximadamente 10% em maio, seguida de outros ajustes durante o segundo semestre.

Mais tarde, Zuckerberg atribuiu os cortes, entre outros fatores, aos elevados investimentos de capital realizados pela companhia.

IA aumentou produção de código, mas ganhos ficaram abaixo do esperado

Outro problema começou a surgir nos próprios indicadores técnicos utilizados pela empresa.

Ferramentas de IA permitiram aos engenheiros produzir muito mais código, mas esse crescimento não se converteu, na mesma proporção, em novos recursos entregues aos usuários.

Segundo dados internos citados pela Reuters, alterações realizadas em plataformas e infraestrutura da companhia cresceram 220% em relação ao ano anterior.

Já as mudanças que efetivamente resultaram em novos recursos ou melhorias chegando aos usuários aumentaram apenas 36%.

A expansão acelerada do código produzido com inteligência artificial também teria provocado problemas de confiabilidade.

Relatos internos mencionavam agentes de IA executando ações em larga escala que normalmente não seriam realizadas por funcionários humanos sem supervisão.

Incidentes técnicos e de segurança teriam aumentado 40%, enquanto o tempo dedicado pelas equipes à resolução desses problemas cresceu 70%.

Falha em chatbot expôs risco da automação

Uma demonstração pública dos desafios ocorreu em junho, quando invasores exploraram um chatbot de atendimento ao cliente baseado em IA da Meta para conseguir acesso a contas conhecidas no Instagram.

Entre os perfis atingidos estava uma antiga conta associada à Casa Branca durante o governo de Barack Obama.

A Meta não comentou à Reuters os números internos relacionados aos incidentes provocados pelas ferramentas de IA.

Pequenas equipes e o conceito de “builder”

O Project OT também pretendia alterar profundamente a estrutura tradicional das equipes.

Em projetos-piloto, a companhia criou pequenos grupos tecnológicos formados por dois ou três engenheiros e um designer. Em vez dos tradicionais ciclos de desenvolvimento de seis meses, as equipes deveriam criar protótipos em períodos de aproximadamente quatro semanas.

Outro documento interno, chamado “AI-Native Playbook”, sugeria eliminar algumas divisões tradicionais entre funções de engenharia e design.

Os integrantes passariam a utilizar um título mais genérico: “builder”.

A estratégia também previa reduzir camadas de gerência intermediária e fazer com que grupos pequenos respondessem diretamente a líderes de unidades maiores.

Em junho, pelo menos 11 áreas da companhia já haviam implementado algum tipo de estrutura baseada nesses pequenos grupos, segundo informações obtidas pela Reuters.

Meta buscava profissionais considerados “insubstituíveis”

Paralelamente, a empresa criou uma ferramenta de recursos humanos para identificar o chamado “Irreplaceable Talent”, ou talento insubstituível.

Os documentos também mencionavam o conceito de “10X Performer”, expressão conhecida no Vale do Silício para descrever profissionais capazes de apresentar produtividade muito superior à média.

A expectativa era que parte das economias obtidas com a redução de pessoal pudesse ser utilizada para oferecer pacotes de remuneração elevados a profissionais estratégicos, especialmente especialistas em inteligência artificial.

Engenharia foi deslocada para treinar modelos de IA

Alguns dos engenheiros da Meta também foram transferidos para uma nova unidade denominada Applied AI Engineering.

O grupo ficou responsável, entre outras atividades, pela criação de desafios de programação utilizados como dados para treinar os modelos de inteligência artificial da própria empresa.

A companhia afirma que esse trabalho começou a produzir resultados e que dados desenvolvidos pela equipe contribuíram para treinar um modelo de IA lançado posteriormente.

Zuckerberg admite que agentes de IA avançaram mais lentamente

Depois da primeira rodada de cortes e da forte reação interna, a Meta passou a reduzir algumas das medidas mais controversas.

O programa de rastreamento de mouse e teclado foi pausado, alguns funcionários transferidos para áreas de IA puderam retornar às equipes anteriores e executivos passaram a anunciar melhorias em benefícios e ações voltadas ao ambiente interno.

Em julho, Zuckerberg fez uma participação inesperada em uma reunião interna e reconheceu que houve erro de cálculo quanto ao ritmo da transformação.

Segundo o executivo, o desenvolvimento dos agentes de IA não havia acelerado tão rapidamente quanto ele imaginava.

Ele afirmou, porém, acreditar que a tecnologia deverá apresentar avanços mais significativos nos meses seguintes.

Meta agora diz estar “apostando nas pessoas”

Após reduzir os aspectos mais agressivos da transformação interna, Zuckerberg passou a defender publicamente uma visão mais centrada na utilização da IA como ferramenta de ampliação das capacidades humanas.

A empresa lançou uma campanha afirmando estar “apostando nas pessoas”, enquanto Zuckerberg publicou um texto de aproximadamente 6.500 palavras chamado “The Future is for Everyone”.

Segundo Zuckerberg, a inteligência artificial poderá criar um cenário futuro com abundância de empregos, embora algumas empresas possam operar com equipes menores.

A estratégia, entretanto, continua sob forte pressão financeira.

Meta deve investir ao menos US$ 130 bilhões em IA

Os investimentos da Meta em inteligência artificial permanecem gigantescos.

A empresa planeja gastar pelo menos US$ 130 bilhões neste ano com chips, data centers e outras estruturas necessárias para desenvolver e operar seus sistemas de IA.

O volume de investimentos aumentou a atenção dos investidores sobre a capacidade da empresa de transformar os gastos em produtividade, receita e redução de custos.

A Meta também pretende transformar agentes inteligentes em produtos comerciais. A companhia já apresentou ferramentas empresariais capazes de executar tarefas como marcar compromissos e auxiliar em vendas.

O futuro do Project OT permanece parcialmente indefinido. A Meta confirmou que várias mudanças estruturais foram implementadas, mas afirmou que nem todos os cenários estudados chegaram a ser executados.

A Reuters não conseguiu determinar quais novas medidas Zuckerberg pretende adotar para continuar remodelando a força de trabalho da companhia.

5 1 voto
Avaliações
Inscrever-se
Notificar de
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado

Compartilhe esta matéria pelo:

Veja também

O vulcão Anak Krakatau, na Indonésia, permanece em intensa atividade após registrar uma erupção contínua acompanhada por fontes de lava, estrondos e lançamento de material vulcânico. O nível de alerta permanece em III, e autoridades estabeleceram uma zona de exclusão de 3 quilômetros. Neste domingo (6), as cinzas também afetaram temporariamente operações em quatro aeroportos.
Previsão para o período entre 31 de agosto e 7 de setembro indica volumes acima de 100 mm no Sul do Brasil. No Espírito Santo, a chuva deve alcançar principalmente o sul do estado a partir de quarta-feira (2).
Meta confirmou fim do suporte para celulares com Android 5.0 e 5.1. Aparelhos como Galaxy S3, S4, Moto G 1ª geração e iPhones antigos vão perder acesso ao WhatsApp. Veja se o seu está na lista e o que fazer no ES.
Ferramentas de inteligência artificial já conseguem criar layouts, textos, imagens e identidades visuais. Veja seis passos para desenvolver seu site com IA.
Desastre atingiu comunidades no Himalaia nesta quarta-feira (26); avalanche de gelo e rochas está entre as hipóteses investigadas para explicar a inundação repentina

Compartilhar postagem

Plano da Meta para substituir parte do trabalho humano por IA sofre recuo após resistência interna

Compartilhar

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x